LEITURA
Publicado no Brasil pelo Conselho Regional de Biblioteconomia, documento produzido nos Estados Unidos cita medidas necessárias para a formação de leitores no século 21, como o fortalecimento da biblioteca escolar
IZABEL LEÃO
O Conselho Regional de Biblioteconomia do Estado de São Paulo acaba de traduzir para a língua portuguesa o documento Standards for the 21st Century Learner (Parâmetros para o Aprendiz do Século 21), elaborado pela Associação Americana de Bibliotecários Escolares (AASL, na sigla em inglês) e publicado pela Associação Americana de Bibliotecas. O objetivo da iniciativa é que os bibliotecários possam compreender melhor quem é o leitor deste século, além de alertar e orientar esses profissionais para a importância da educação para o desenvolvimento da competência em informação, desde a escola fundamental e média até o ensino superior. Com isso, espera-se promover a autonomia do cidadão para a solução de problemas e aprimoramento pessoal ao longo da vida, tornando-o capaz de contribuir para o desenvolvimento pleno da sociedade.
Esse documento corrobora a promulgação da Lei 12.244, de 24 de maio de 2010, que estabelece a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do Brasil. Até o ano de 2020, todas as escolas brasileiras deverão ter uma biblioteca e toda biblioteca escolar, um bibliotecário.
O documento contém oito páginas, que definem que a competência em informação é indispensável ao aprendiz deste século. Ele propõe que a aprendizagem deixe de ser passiva e passe para ações mais ativas. Também estabelece que é na biblioteca da escola – lugar no qual se oferece acesso democrático aos recursos e ferramentas necessários para a aprendizagem – que o estudante aprende a definir as necessidades de informação, busca, localização e organização, utilizando essa informação para criar novos conhecimentos. “Portanto, a biblioteca, reconhecida tradicionalmente como espaço de pesquisa e leitura por excelência, precisa buscar novas maneiras de promover o aprendizado autônomo e continuado de toda a comunidade escolar”, explica a coordenadora da Comissão de Educação do Conselho Regional de Biblioteconomia, Rosana Telles, tradutora do documento.
Cenário atual – Segundo o documento, diante da velocidade e do volume com que as informações e conhecimentos são produzidos e disseminados, não é mais possível que os conteúdos curriculares da escola se mantenham válidos por muito tempo. Nesse cenário, é essencial que o estudante aprenda a aprender, sendo capaz de avaliar o seu próprio desempenho e construir sua autonomia informacional, elemento necessário para que seja bem-sucedido em sua vida pessoal, social e profissional.
Mais conhecido como nativo digital, aquele que nasceu e cresceu com as tecnologias digitais, e reconhecido pela AASL como aprendiz do século 21, é importante que esse indivíduo consiga reconhecer quando a informação é necessária e ter capacidade de localizá-la, avaliá-la, transformá-la e compartilhá-la.
O documento estabelece, ainda, que é na biblioteca da escola, por meio de programas específicos desenvolvidos pelo bibliotecário em parceria com os professores, que os alunos aprenderão a lidar com a informação, matéria-prima para a criação de novos conhecimentos.
Para Rosana, algumas medidas podem ser adotadas para implementar esse novo modelo, como, por exemplo, a reorganização da grade horária escolar para os ensinos infantil e fundamental, permitindo que cada classe visite a biblioteca uma vez por semana, ficando sob a orientação e cuidado do bibliotecário.
Outra medida seria a elaboração de currículo integrado para capacitação informacional (a ser cumprido no decorrer da vida escolar), preparando o estudante brasileiro para um melhor desempenho na vida acadêmica.
A coordenadora acrescenta ainda uma parceria entre bibliotecários e professores atuando como educadores, usando as competências específicas de cada área (competências informacionais e conhecimento sobre o currículo) para criar experiências significativas de aprendizagem.
Convivência – Como deve ser o papel da biblioteca dentro desse contexto? Para a diretora da Divisão de Desenvolvimento e Inovação do Sistema Integrado de Bibliotecas (Sibi) da USP, Elisabeth Adriana Dudziak, a biblioteca da atualidade deve ser um centro de aprendizagem, convivência e expressão, onde a busca de informação, em qualquer suporte, e a troca de ideias promovam oportunidades de criação e de inovação pelo compartilhamento. “Como espaço arquitetônico, deve acolher, proporcionando um ambiente adequado aos seus propósitos. Como organização, deve estar centrada no usuário e no atendimento às suas necessidades. Como agente de transformação, a biblioteca deve ser o centro irradiador de mudanças, engajada plenamente com as atividades de ensino, pesquisa e extensão universitárias”, ressalta.
Nesse sentido, Elisabeth explica que o Sibi promove ações para o desenvolvimento da competência em informação das equipes bibliotecárias, de modo que as mesmas atuem como agentes multiplicadores junto às suas comunidades, bem como em parcerias com docentes e alunos em projetos acadêmicos.
Rosana Telles vê a consolidação da biblioteca como espaço escolar quando o foco da ação estiver tanto na sala de aula quanto na biblioteca, embasando a aprendizagem em fonte de pesquisa. “A biblioteca pode se tornar um espaço propício em que as partes envolvidas – bibliotecários, professores, alunos e comunidade escolar em geral – se beneficiarão do engajamento no processo contínuo de aprendizagem e da formação de redes humanas para compartilhamento de conhecimento”, reflete.
A utilização dos Parâmetros para o Aprendiz do Século 21 pelo bibliotecário para formar melhor o aluno deve partir de algumas convicções compartilhadas. Segundo Rosana, “a atitude ética no uso da informação deve ser ensinada; as competências tecnológicas são cruciais para as futuras exigências do mercado de trabalho; a contínua expansão da informação demanda que todos os indivíduos adquiram a capacidade de pensar, a qual possibilitará a autonomia na aprendizagem. O documento é, em última instância, uma proposta para a educação global do indivíduo/cidadão.”
Livro impresso – O diretor da Editora da USP (Edusp), professor Plinio Martins Filho, se mostra preocupado com o fato de que se tem dado tamanha importância para a disseminação do uso das tecnologias, em detrimento do incentivo à leitura do livro impresso. Para ele, o livro impresso, como tecnologia de armazenamento e transmissão de conhecimento, segue insuperado. “A leitura pode ser em qualquer suporte. O que se deve avaliar é qual a eficiência de cada um desses meios. Se a leitura no suporte digital está formando pessoas ou informando.”
Para ele, a biblioteca deve ser um lugar acessível a todos e que funcione dia e noite, inclusive no final de semana, se queremos um país com muitos leitores. “Inclusive a Universidade deveria valorizar mais suas bibliotecas nesse sentido, permitindo o acesso a todos a qualquer momento. Numa universidade como a USP, em que as bibliotecas dificultam acesso ao livro e fecham a qualquer movimento de greve, isso mostra a falta de comprometimento com o público, como também comprova que as pessoas que convivem na Universidade não dão muita importância para o livro em sua formação. Isso assusta. Os estudantes ficam sem acesso às bibliotecas e ninguém reclama.”
O documento Parâmetros para o Aprendiz do Século 21 pode ser encontrado no endereço eletrônicowww.crb8.org.br.

